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by Redação / 30 / 10 / 2025

Cultura em rede: o Piauí descobre sua força coletiva com o Pontão “Cultura ao Alcance de Todos”

 

Formação, mapeamento, mobilização e diversidade: o ciclo de um ano que reconfigurou o cenário cultural piauiense, unindo juventudes, mestres populares e coletivos em torno de uma política viva e permanente.

Por muito tempo, a cultura do interior do Piauí sobreviveu em pequenas ilhas — coletivos isolados, mestres sem apoio, jovens com talento, mas sem estrutura. A chegada do Pontão “Cultura ao Alcance de Todos” alterou essa paisagem. Com uma metodologia que combinou formação técnica, articulação territorial e ação política, o projeto deu rosto e voz a uma rede que hoje ocupa o mapa cultural do estado com autonomia e força coletiva.

Em pouco mais de um ano, o Pontão desenvolveu quatro grandes frentes de trabalho: formação de agentes culturais, mapeamento e diagnóstico da rede, capacitação e campanha de diversidade, e articulação estadual dos Pontos de Cultura. A execução completa das metas deixou como resultado um conjunto de ferramentas e práticas que ultrapassam o ciclo do projeto: material pedagógico aberto, base de dados pública, redes sociais ativas, comissão estadual reconstituída e novos agentes formados em cidades onde a política cultural raramente chegava.

O processo começou pela base. Na Meta 1, jovens de regiões periféricas e rurais foram capacitados como agentes de articulação cultural, aprendendo a registrar, divulgar e mobilizar ações em seus territórios. De espectadores, tornaram-se operadores da política pública.

Na sequência, a Meta 2 mapeou os Pontos e Pontões de Cultura de todo o estado, atualizando cadastros e identificando coletivos invisibilizados. O trabalho cruzou redes sociais, formulários digitais e validações presenciais no 5º Fórum Estadual de Pontos de Cultura, que se tornou ponto de encontro da diversidade artística piauiense.

A Meta 3 consolidou o eixo pedagógico, com oficinas itinerantes de Elaboração de Projetos, Teatro, Audiovisual e Cultura Popular/Artesanato, além da campanha “Somos Todos Iguais na Diferença”, conduzida pelo professor e pesquisador Paulo de Tarso da Silva Junior, que percorreu cidades com palestras e debates sobre direitos humanos, cidadania e combate às discriminações. Foram 28 turmas realizadas em cinco municípios — Boa Hora, Jaicós, São Raimundo Nonato, Simplício Mendes e Floriano —, totalizando centenas de participantes entre estudantes, produtores culturais e mestres populares.

Na Meta 4, o foco foi a rearticulação da Rede Cultura Viva Piauí, culminando no Fórum Estadual, que reuniu representantes de todas as regiões, promoveu feiras, mostras e debates, e elegeu a nova Comissão Estadual dos Pontos de Cultura. O evento consolidou a retomada da política de base cultural no estado, com adesão de prefeituras, escolas e instituições locais.

Os recursos federais aplicados garantiram infraestrutura mínima — transporte, hospedagem, alimentação, equipamentos e material gráfico —, mas o diferencial esteve no uso pedagógico e estratégico dos investimentos. Cada ação financiada gerou produtos coletivos e permanentes: vídeos, apostilas, registros fotográficos e relatórios tornaram-se parte de um repositório digital público, acessível por pelo menos dez anos.

“A gente aprendeu a fazer, a registrar e a mostrar o que faz. Agora a cultura daqui tem endereço e tem nome”, conta Beatriz Rocha, arte-educadora de teatro e uma das formadoras do projeto.

O resultado é mensurável: mais de 600 pessoas capacitadas, centenas de produtos culturais gerados, e uma rede orgânica de coletivos que hoje dialoga com secretarias, escolas e o Ministério da Cultura. Mas há algo que não cabe em números: a transformação simbólica. O Pontão devolveu dignidade e visibilidade a comunidades que sempre produziram cultura, mas raramente eram reconhecidas como produtoras de conhecimento.

Para o produtor César Crispim, coordenador geral do Pontão, a experiência mostrou que a política cultural é feita de processos e não de eventos. “Quando a gente fala de Pontão, fala de continuidade. O que foi construído aqui não termina, porque virou estrutura: virou gente capaz, rede ativa, política que não depende mais de um edital”, afirma.

Mestres populares, como Agnaldo Ribeiro, de São Raimundo Nonato, destacam a força simbólica do encontro entre saberes: “Eu ensino o reisado, mas também aprendo o audiovisual, aprendo a registrar a reza e o canto. Isso é o que fica”.

O projeto mostrou que cultura é direito e política de base, e não apenas espetáculo. A presença de jovens, mulheres, quilombolas e educadores nas formações e fóruns criou um espaço inédito de diálogo e cooperação. Os agentes formados atuam hoje em projetos próprios, elaborando propostas, participando de editais e reproduzindo o conhecimento adquirido.

A digitalização das informações e a manutenção das plataformas on-line asseguram a memória viva das ações. Todo o conteúdo — vídeos, relatórios, apostilas, cards e produtos da campanha — está disponível em domínio público, servindo de referência para pesquisadores, professores e novos Pontos de Cultura.

Com todas as metas cumpridas, o Pontão encerra esta etapa, mas abre outra. A rede planeja a continuidade das formações, a criação de um banco estadual de projetos culturais, a institucionalização do Fórum como evento anual e a expansão da campanha de diversidade para escolas públicas e comunidades tradicionais.

O Piauí, que durante tanto tempo foi visto como periferia no mapa cultural brasileiro, agora ocupa o centro da própria narrativa. O Pontão “Cultura ao Alcance de Todos” não apenas executou um projeto — inaugurou um método de permanência, baseado em partilha, reconhecimento e autonomia.

“O que fica é o sentimento de que agora o Piauí tem uma rede, e essa rede tem rosto, voz e continuidade”, resume Paulo de Tarso.

 

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